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O engenheiro Tarcísio Takashi Muta, é um caso exemplar. Hoje diretor-presidente da Atech, ele pode orgulhar-se de operar e ter desenvolvido os sistemas de defesa e controle de tráfego aéreo que protegem 80% dos vôos sobre o Brasil. A Atech, formada por engenheiros egressos do famoso Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), faturou quase R$ 60 milhões em 2002. Ela foi responsável pela integração do Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM), área considerada uma das mais complicadas desse gigantesco projeto que teve investimento de US$ 1,4 bilhão. A Atech concluiu seu trabalho antes mesmo da Embraer e da Raytheon e assim acabou ganhando acesso exclusivíssimo clube de empresas (são apenas dez no mundo) capacitadas nessa área. Para chegar aí, no entanto, Takashi perseverou 13 anos. Levou cano de um empregador falido, sofreu com pressões políticas e esbarrões de multinacionais interessadas em tomar para si o desenvolvimento do Sivam. Filho de agricultores do interior paulista, teve a paciência necessária para criar o grupo, especializado em "vender conhecimento". Ele atua com as chamadas tecnologias críticas, capazes de resolver grandes nós de confusão informática em diferentes setores. "Ter um grande volume de informações pode ser apenas um grande problema - não um ganho de conheimento", diz Takashi. Hoje a Atech, com 400 funcionários, tem softwares para levantamentos geológicos e prospecção, radares meteorológicos e até sistemas para a área de segurança pública. No mundo todo, não passa de dez o número de empresas que desenvolvem sistemas de controle e defesa de tráfego aéreo -- uma das atividades mais dependentes de tecnologia que existem. A brasileira Atech, de São Paulo, integra essa dezena. Seus sistemas controlam 80% dos aviões que cruzam o país -- ela foi responsável pela integração do bilionário e controvertido Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). Na América Latina, a Atech é a única a desenvolver esse tipo de sistema. As demais fabricantes de software de controle e defesa de espaço aéreo são sediadas em países como Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha. A Atech é a prova de que o Brasil reúne não apenas a capacidade de desenvolver software da maior qualidade mas também a inteligência necessária para entender como a tecnologia pode transformar e reorganizar a economia para obter ganhos reais de qualidade e produtividade. Na década de 80, a Amazônia era considerada o pulmão do mundo, e nós, brasileiros, os incendiários que estavam acabando com o oxigênio do planeta. Os outros países, de olho em nossas riquezas, diziam-se preocupados com a saúde da Terra e queriam dar palpite em tudo que acontecia na Amazônia. Naquela época, existiam na região rotas de tráfico de drogas, ocupação desordenada, invasão de áreas indígenas, contrabando, ações predatórias - principalmente de madeireiras e garimpos ilegais - e a ocorrência de uma série de outros crimes. Na verdade, com as dificuldades de comunicação e de controle da região, ficava difícil para o governo brasileiro saber a real situação da Amazônia. Em setembro de 1990, a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE/PR) e os Ministérios da Aeronáutica e da Justiça apresentaram à Presidência da República a verdadeira realidade da Amazônia, com todos os seus problemas. Aquela Exposição de Motivos resultou na emissão diretrizes da Presidência, determinando o que cada um deveria fazer para proteger o meio ambiente, racionalizar a exploração dos recursos naturais e promover o desenvolvimento sustentável da Amazônia: A SAE/PR deveria formular um Sistema Nacional de Coordenação, atual - Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), onde a atuação integrada dos órgãos governamentais visasse à promoção do desenvolvimento sustentável, proteção ambiental e repressão aos ilícitos na Amazônia. O Ministério da Aeronáutica (atual Comando da Aeronáutica) deveria implantar o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM), integrado ao Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), a fim de prover as ferramentas para o funcionamentodo SIPAM. O Ministério da Justiça deveria estruturar um conjunto de medidas que permitisse sua integração ao SIVAM, de forma a habilitá-lo ao desenvolvimento das ações de sua responsabilidade. A partir daí foi elaborado o Projeto Pró-Amazônia a fim de aprimorar a capacidade da Polícia Federal no desempenho de suas tarefas na Região Amazônica. ![]() O SIVAM dividiu a Amazônia em três grandes áreas sem fronteiras perfeitamente definidas: Manaus, Belém e Porto Velho. Cada área corresponderá a um Centro Regional de Vigilância (CRV), localizado em cada uma destas capitais. Esses CRV terão o seu trabalho coordenado pelo Centro de Coordenação Geral (CCG), em Brasília. Em resumo, o SIVAM vai contar com um CCG (Brasília), três CRV (Manaus, Porto Velho e Belém) e diversos Órgãos Remotos e sensores espalhados por toda a Região Amazônica, os quais terão os seus dados agrupados e processados nos CRV. O sistema terá uma rede primária de informações, que ligará os CRV e o CCG entre eles; uma rede secundária, compreendendo estações que usarão radares (unidades maiores que possuem estações satélites, sistema de telecomunicações, radar metereológico, etc) e a rede terciária, abrangendo as estações menores (em áreas remotas, onde haverá, por exemplo, pessoal do Ibama, da Funai e Pelotões de Fronteira do Exército). Quem estiver em áreas remotas poderá se ligar à rede terciária e, por intermédio da secundária, entrar na rede primária e ter acesso a todas as informações que necessitar do SIVAM. Em resumo, quando o SIVAM estiver pronto, o usuário que estiver em Palmeira do Javari conseguirá trocar informações com quem estiver lá em Cucuí, por exemplo. Com o projeto Sipam, a tecnologia está invadindo a selva. Computadores, telefones, fax e e-mail por satélite, plataformas de coleta de dados meteorológicos e ambientais, radares meteorológicos e de vigilância, sofisticadas antenas parabólicas e outros equipamentos de primeira geração estão sendo instalados em locais afastados e comunidades isoladas de toda a Amazônia Legal brasileira, que abrange nove Estados e uma área de 5,2 milhões de quilômetros quadrados. Trata-se do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), a versão civil do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). Esses equipamentos permitirão a coleta de um conjunto variado de informações sobre a Amazônia como nunca se teve antes. São dados que vão desde a biodiversidade, o clima e a situação dos rios da região até o mapeamento preciso de áreas desmatadas e queimadas. Também poderão ser obtidas informações sobre ocupação e uso do solo, garimpos ilegais e focos de epidemias. Todo esse conhecimento será armazenado num banco de dados do Sipam e repartido com órgãos do governo com interesses na Amazônia. As possibilidades abertas para as pesquisas pelo sistema estão deixando a comunidade científica da Amazônia eufórica. "A capacidade de obtenção e integração de informações é espantosa", diz o ecólogo e especialista em peixes Ronaldo Barthem, que coordena um convênio do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) com o Sipam na área de zoologia. "Os radares dos aviões do Sivam podem, por exemplo, estimar a biomassa vegetal com grande precisão. É uma informação de extrema relevância para estudos de carbono, fitofisionomia e manejo florestal." Embora estejam interligados, o Sivam e o Sipam não são a mesma coisa. O primeiro é a parte tecnológica, à qual pertencem os equipamentos que fazem parte do complexo operacional, e está subordinado ao Comando da Aeronáutica. Também está envolvido na defesa aérea da região. É o chamado lado azul dos dois. O segundo, o verde, trabalha com as informações ambientais coletadas pelo complexo e é coordenado pelo Centro Gestor e Operacional do Sipam (Censipam), subordinado à Casa Civil da Presidência da República. Todos os equipamentos do Sivam foram fornecidos pela empresa americana Raytheon, que venceu a concorrência para isso. A distribuição deles pelo território nacional e sua instalação, porém, ficou a cargo da Fundação Atech, criada especialmente para essa tarefa. "Somos a empresa integradora brasileira do Sivam", diz Giacomo Feres Staniscia, diretor da Atech. "Desenvolvemos e fornecemos os softwares considerados estratégicos pelo governo brasileiro, além de absorver tecnologia sobre os criados por empresas estrangeiras, instalá-los e promover o treinamento operacional dos órgãos nacionais participantes." Hoje, 70% do Sipam já está operando. O sistema funciona em co-gestão com órgãos parceiros, como Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Fundação Nacional do Índio (Funai), Polícia Federal e Ministério da Defesa. Há ainda convênios com instituições de pesquisa, como Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), além do MPEG. Esses órgãos trocam informações com o Sipam e entre si. Quer dizer, o Ibama, por exemplo, coleta dados sobre o meio ambiente ou queimadas e os envia para o banco do Sipam, que os disponibiliza para os outros parceiros. Para isso, o sistema tem três Centros Regionais de Vigilância - Manaus, Porto Velho e Belém -, outros 40 menores em torno deles e mais 914 chamados pontos usuários, em comunidades afastadas, dos quais mais de 400 já estão funcionando. O convênio coordenado por Barthem não é o único que o Museu Goeldi mantém com o Sipam. Há outro na área de botânica. "Recebemos deles computadores e programas", explica o diretor do museu, Peter Mann de Toledo. "Em troca, forneceremos informações sobre distribuição e ocorrência de animais e plantas na Amazônia, que irão para o banco do Sipam." Para ele, a região tem muito a ganhar com o sistema. "Aqui é a última grande fronteira do mundo a ser explorada", diz. "Sua gestão só pode ser feita com muita informação." A Ufam é outra instituição da Amazônia que já se beneficiou do Sipam. Os equipamentos do sistema permitiram que a universidade tocasse dois projetos, um de manejo de quelônios e outro de monitoramento ambiental das áreas de atuação da Petrobrás na região. Agora a grande meta da Ufam é a criação de cursos a distância, via satélite. "Nossa intenção é atender às demandas sociais por educação de qualidade a distância", explica a pesquisadora Kátia Viana Cavalcante, da Ufam, coordenadora institucional do convênio com o Sipam. "Vamos criar programas de formação nos níveis de graduação e pós-graduação, além de dar apoio a atividades de pesquisa e extensão." Entre os órgãos do governo, o Ibama será um dos que mais se beneficiarão com o Sipam. Segundo o seu diretor de Proteção Ambiental, Flávio Montiel da Rocha, está sendo montada em Brasília uma sala com 15 computadores fornecidos pelo Sipam. Esses equipamentos serão interligados com as 17 gerências do Ibama na região. "Os computadores serão alimentados com informações dos diversos tipos de sensores (termais, ambientais, hidrológicos) espalhados na Amazônia", diz Rocha. "Isso ampliará muito nossa capacidade de monitoramento da Amazônia. Nos dará maior agilidade na proteção da região contra desmatamento, queimadas e outros ilícitos." Plantar alta tecnologia no coração de uma floresta equatorial, como a amazônica, não é tarefa fácil. Durante cinco anos, os engenheiros e técnicos da Fundação Atech, a empresa brasileira encarregada da logística e da instalação dos equipamentos do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), aprenderam que na selva quem dita as regras é a natureza. Tudo depende do clima, do regime das chuvas e dos rios e da interação com as comunidades ribeirinhas e indígenas. Segundo o engenheiro de telecomunicações Ricardo Luiz Cardoso Vilarinho, diretor regional da Atech em Manaus, a empresa teve de lançar mão de todos os meios para levar computadores, radares, estações meteorológicas e outros equipamentos sofisticados para locais distantes e isolados na floresta. "Usamos desde aviões e helicópteros até tração animal", diz. "Sem falar em todo tipo de barco, claro, que é o principal meio de transporte na região". Ter os meios e conhecer os caminhos não é suficiente, no entanto. É preciso estar atento ao regime dos rios para saber quais as melhores épocas para navegá-los. Um lugar em que é possível atracar um barco no período de seca, por exemplo, simplesmente desaparece na cheia. "Além disso, também é preciso conhecer as pessoas que podem alugar barcos ou outros meios e saber se vão estar disponíveis no dia propício à navegação", diz Vilarinho. Além desses problemas técnicos, a equipe da Atech defrontou com situações inesperadas. Como sapos provocando curto-circuitos em equipamentos instalados na selva ou ratões-do-banhado roendo cabos elétricos. "É a natureza ensinando a tecnologia", diz Paulo Oggi, gerente de Logística da Atech. "Hoje conhecemos a realidade desta grande floresta." A experiência com o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) começa a resultar em contratos internacionais para empresas brasileiras. A Atech Tecnologias Críticas, criada para desenvolver software para o sistema, fechou no começo do mês de outubro de 2004 um contrato de transferência de tecnologia com o governo da Venezuela, no valor de R$ 1 milhão, oferecendo consultoria para o Programa Venehmet, para monitorar a meteorologia e a hidrologia. "As empresas nacionais têm de batalhar muito para exportar tecnologia", afirmou Tarcísio Takashi Muta, diretor-presidente da Atech. "Não é uma tradição brasileira." No caso da Venezuela, a exportação é de serviços, não de software. O Ministério do Meio Ambiente daquele país acaba de comprar um sistema de monitoramento. A Atech terá 3 tarefas, durante um período de 10 meses: auxiliar o governo venezuelano a comprovar se o sistema entregue está de acordo com o especificado; treinar os funcionários do governo e ajudá-los a aproveitar ao máximo os recursos e as informações oferecidas pelo sistema; e, por último, iniciar o planejamento de uma ampliação do sistema, para englobar outras áreas de monitoramento, como o ambiental e o territorial. "No limite, o programa pretende alcançar uma funcionalidade próxima à do Sivam", disse Muta. O executivo espera que, numa segunda fase, haja espaço também para exportar software. O sistema venezuelano é formado por uma rede de sensores e nove radares meteorológicos espalhados pelo país, controlados a partir de um centro integrado de operações. A Atech busca oportunidades de exportação em outras regiões do mundo. A empresa fechou um pequeno contrato no Japão, no modelo de fábrica de software, com a Yokogawa, por meio de um parceiro local. O modelo implica produzir linhas de programação de acordo com o especificado pelo cliente, como fazem hoje, com bastante sucesso, as empresas indianas. "Esse primeiro contrato é mais para o cliente conhecer nossa capacidade de executar", afirmou Muta. "Até o meio do ano que vem, devemos começar a conseguir contratos maiores." Outro mercado no foco da companhia é o alemão. Fonte: http://www.atech.br/imprensa/noticias/Epoca.htm http://portalexame.abril.com.br/pgMain.jhtml?ch=ch04&sc=sc0401&pg=pgart_0401_180603_55292.html http://www.atech.br/imprensa/noticias/Tecnologia_chega_confins_Amazonia.htm http://www.sivam.gov.br/PROJETO/hist1.htm acesso em janeiro de 2004 Revista Época de 25 agosto de 2003, página 43 "A Revolução do saber" Ana Magdalena Horta, Marcelo Aguiar e Estela Caparelli Atech transfere tecnologia para Venezuela autor: Renato Cruz Fonte:O Estado de São Paulo 15/10/2004 envie seus comentários para otimistarj@gmail.com. |