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Um grupo de pesquisadores da USP de Bauru (interior de São Paulo) desenvolveu um método para criar ossos em laboratório, prontos para serem implantados em pacientes que sofreram fraturas e sem problemas de rejeição. Um dos segredos do sistema, que pode ser testado em humanos em 2003, é usar ossos bovinos como suporte para o implante, uma técnica que aproveita a estrutura óssea gerada pela natureza e um material bem mais barato que os compostos sintéticos testados até hoje. De acordo com José Mauro Granjeiro, pesquisador da FOB (Faculdade de Odontologia de Bauru) e um dos coordenadores do projeto, as opções de pessoas que acabam perdendo parte do tecido ósseo estão longe de ser ideais. "Você pode tentar um enxerto retirado de um osso da própria pessoa ou de um banco de ossos, de um doador morto", diz. No primeiro caso, costuma-se retirar um trecho da crista ilíaca, um osso da cintura. Dependendo do tamanho, porém, retira-se uma cunha grande desse osso, o que pode deixar sequelas complicadas, como dores e dificuldade para caminhar.A outra opção, usar tecido ósseo de um doador, depende da análise de possíveis doenças da pessoa que doou o osso e da conservação do tecido em condições especiais. E envolve o risco de rejeição. O trabalho da equipe, que já vem sendo feito há dez anos, encontrou o molde ósseo ideal em pequenos pedaços de osso bovino, que ajudam o implante a desenvolver uma estrutura igual à de um osso verdadeiro. "O osso bovino já tem poros biologicamente desenhados que permitem isso", afirma Granjeiro. Para criar o implante, os pesquisadores extraem osteoblastos (células que vão formar o tecido ósseo) da medula, que são separados das demais células dessa região e cultivados em laboratório. Colocados na matriz óssea, eles se multiplicam e são banhados com a proteína BMP (proteína morfogenética óssea, na sigla em inglês), que estimula o crescimento do tecido. Depois de cerca de 40 dias, o implante está pronto para voltar ao paciente. Testada até agora em coelhos, a técnica tem mostrado bons resultados. Porém, não basta enxertar matriz em uma lesão óssea: para reparar a fratura, é preciso ter também células de osso em crescimento. Por isso, os pesquisadores retiram, com o auxílio de uma seringa, algumas células do interior (medula) de um osso do indivíduo e, em seguida, as colocam em um recipiente que contém matriz óssea bovina. Depois, adicionam hormônios que estimulam a multiplicação celular. Após 30 ou 40 dias, o tecido ósseo produzido em laboratório poderia ser enxertado no paciente, com baixo risco de rejeição ou infecção. "Em geral, é fácil e rápido coletar células do osso da bacia, pois ele é bem aparente", afirma Granjeiro. "Mas, em princípio, nada impede que se retirem células da medula de qualquer osso longo." Os 'ossos de laboratório', em estudo há doze anos, são desenvolvidos sobre 'matrizes' retiradas de ossos bovinos, nas quais são adicionadas as células ósseas da pessoa que precisará do enxerto. Em geral, essas células são retiradas da medula óssea ou da crista ilíaca (ossos da base dos quadris) do paciente. Em seguida, é adicionada uma proteína que estimula o desenvolvimento do tecido ósseo. Em cada osso, as novas células crescem em um ambiente especial (a matriz óssea), rico em compostos orgânicos e inorgânicos. A solução encontrada pelos pesquisadores para o desafio inicial de produzir essa matriz em laboratório foi aproveitar esqueletos de boi. Os ossos bovinos são aquecidos e, em seguida, sua parte inorgânica é recolhida. Ao lavá-los com ácido, os cientistas recuperam o material orgânico, sobretudo uma substância chamada colágeno. "Como o colágeno de boi é muito parecido com o humano, o material bovino poderia ser usado em enxertos sem grande risco de rejeição", explica o professor José Mauro Granjeiro, membro da equipe. O uso da matriz bovina, de acordo com Granjeiro, é um dos diferenciais do trabalho. "Grupos no exterior estão testando polímeros [compostos orgânicos formados pela repetição da mesma unidade básica] muito caros, que não têm a vantagem da porosidade natural do osso", afirma. O outro "pulo do gato" da equipe, diz o pesquisador, é não criar implantes com o mesmo tamanho da fratura, mas pequenas "pastilhas" com o tecido ósseo. "O problema de implantar algo muito grande é a irrigação do sangue, que não conseguiria abranger o implante", explica Granjeiro. "Com implantes pequenos, isso seria contornado e o próprio organismo se encarrega de refazer a forma original do osso", afirma o pesquisador da USP. Outra idéia do grupo é descobrir em que situações é melhor usar uma matriz de colágeno (a parte orgânica do osso, mais maleável) ou uma de fosfato de cálcio (a parte mineral). "Isso deve depender do tipo de fratura, já que o colágeno é totalmente absorvido pelo organismo, mas não é tão resistente, enquanto a parte mineral pode ser mais frágil para fixar o implante", afirma o pesquisador. Além de Granjeiro, a pesquisa está sendo coordenada por Eulázio Taga e Rumio Taga, também do FOB, e por Mari Sogayar, do IQ (Instituto de Química) da USP de São Paulo. O trabalho recebe apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da empresa Baumer S.A., que produz pinos de titânio para fraturas como as estudadas na pesquisa. Pesquisas semelhantes também estão sendo realizadas fora do Brasil. Segundo o professor Granjeiro, a técnica da USP de Bauru é a única a utilizar matrizes bovinas, o que diminui os custos de produção, já que evita a importação de matrizes construídas em laboratório. Em laboratório, células de osso podem crescer aderidas a outros materiais além da matriz bovina. Nos Estados Unidos, os pesquisadores utilizam polímeros para produzir enxertos de tecido ósseo. "Esses polímeros não têm poros biologicamente desenhados como os da matriz bovina e, portanto, dificultam a circulação sangüínea no enxerto", explica Granjeiro. Fonte: http://www.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u6904.shtml http://200.177.98.79/jcemail/Detalhe.jsp?id=3918&JCemail=2091&JCdata=2002-08-06 http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT358370-1717,00.html http://www.uol.com.br/cienciahoje/chdia/n676.htm acesso em março de 2003 envie seus comentários para otimistarj@gmail.com. |