Anel de Ferrara Anel de Ferrara Anel de Ferrara

       




O oftalmologista Paulo Ferrara de Almeida Cunha, de 51 anos, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, criou uma nova técnica para cirurgia de olhos. O método serve para o tratamento do ceratocone, uma doença hereditária que atinge pessoas entre 12 e 30 anos e provoca o afinamento e a deformação progressiva da córnea, levando à cegueira. Nesses casos, até hoje, a única alternativa de tratamento era o transplante de córnea. Com sua invenção – basicamente o implante de dois microanéis de acrílico –, Ferrara permite que se evite o transplante ou, nos casos mais graves, que se adie esse procedimento por um longo período.

O Anel de Ferrara é uma órtese composta de dois segmentos semi-circulares, de espessuras variáveis , com 5mm de diâmetro, confeccionada em Perspex CQ Acrilic, que é o mesmo material utilizado há mais de 20 anos na confecção de lentes intra-oculares. Ele é perfeitamente tolerado pelo organismo, não havendo risco de rejeição.

Os implantes intracorneanos surgiram na década de 50 e foram idealizados por Barraquer, com o objetivo de evitar os inconvenientes da cicatrização e da elasticidade da córnea, principais obstáculos à previsibilidade e estabilidade dos procedimentos refrativos. O anel corneano intraestromal é uma modalidade desta técnica e foi desenvolvido a partir dos anos 60 por Blavatskaya, na Rússia. No entanto, só a partir dos anos 90 é que começou a ser utilizado para correção de miopias.

O anel corneano deixa a estrutura da córnea inalterada respeitando a sua região mais nobre que é a zona óptica. Além disso, mantém a asfericidade positiva, melhorando a performace visual, através da diminuição dos halos e reflexos em torno das luzes e evitando a baixa acuidade visual noturna. As pesquisas que levaram ao desenvolvimento do Anel de Ferrara tiveram início em 1986, quando o Dr. Paulo Ferrara desenvolveu um anel de PMMA, de pequeno diâmetro, secção triangular, para ser implantado no terço anterior do estroma corneano. O Anel Corneano Intraestromal ( ACI ) foi implantado em coelhos, e as observações clínicas e laboratoriais, após 12 meses, revelaram uma ótima tolerância da córnea, sendo que em nenhum caso houve extrusão do implante.

O prof Ferrara explica: "Inspirados nos estudos pioneiros de Barraquer e Blavatskaya, iniciamos em 1986, um trabalho de pesquisa de implantes intra-corneanos junto ao Departamento de Oftalmologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Esta pesquisa pioneira, realizada em cobaias animais, tinha como objetivo estudar a segurança e eficácia de implantes intra-corneanos para correção de altas miopias e astigmatismos. Inicialmente, estudamos a hipótese de que o polimetilmetacrilato (PMMA), polímero utilizado há décadas na confecção de lentes intra-oculares era bem tolerado no ambiente intra-corneano. A hipótese foi confirmada por estudos histológicos realizados em olhos de coelhos sacrificados após 12 meses do implante de órteses de PMMA no estroma corneano."

Em 1991, foi realizado o primeiro implante em paciente. Trabalho publicado pela Revista Brasileira de Oftalmologia, vol. 54, n.8, pág 19-30, 1995 - Anel Intraestromal em Miopia. Após seis anos de observação clínica não se verificou qualquer reação de extrusão e o paciente apresentava boa tolerância ao ACI, com resultado visual satisfatório. Entretanto, as técnicas tradicionais de implante, com dissecação a mão livre, apresentavam alguns aspectos negativos como a formação de depósitos de interface, demora na estabilização da refração, além de custo elevado. Com o objetivo de aprimorar a técnica, reduzindo suas complicações e tornando-a mais acessível a um maior número de cirurgiões, Dr. Paulo Ferrara desenvolveu, a partir de 1994, uma técnica de tunelização do estroma e implantação do ACI, que elimina por completo as desvantagens das técnicas tradicionais.

O prof Ferrara comenta: "Nossos primeiros pacientes implantados incluíam indivíduos com córneas bastante comprometidas por altos astigmatismos irregulares secundários a ceratoplastias penetrantes e ceratotomias radiais prévias, que eram encaminhados ao Departamento de Oftalmologia da UFMG (Hospital São Geraldo) para receberem transplantes de córneas. Mesmo nesses pacientes cuja regularidade corneana era altamente comprometida, observamos boa tolerância à órtese e um resultado de correção refrativa benéfico e estável. O acompanhamento destes pacientes por um período de 02 anos confirmou definitivamente que o PMMA é bem tolerado no estroma corneano, e que o anel corneano intra-estromal produz além de um aplanamento e conseqüente redução do componente eférico uma importante regularização da morfologia corneana.

Verificamos, contudo, a baixa previsibilidade da correção refrativa planejada, a partir do que desconsideramos a aplicabilidade do implante de anel corneano intra-estromal com objetivo de correção essencialmente refrativa, sobretudo pelo advento da correção visual por excimer laser que oferece melhor previsibilidade refrativa. Contudo, a constatação de que nosso anel era bem tolerado mesmo em córneas comprometidas por cirurgias prévias, bem como a propriedade do implante de regularizar distorções existentes no centro da córnea (eixo visual), sugeria a aplicabilidade do implante em córneas acometidas por ceratocone em pacientes intolerantes às lentes de contato.

Em 1996, implantamos experimentalmente um anel intra-corneano de PMMA para correção do ceratocone em paciente com indicação para transplante de córnea. O resultado cirúrgico foi extremamente favorável, verificando-se uma importante correção ortoceratológica que permitiu uma acentuada melhora da acuidade visual e a correção do erro refracional residual com óculos. Desde então, temos dedicado todo nosso esforço e recursos científicos, profissionais e pessoais ao estudo da segurança e eficácia de implantes corneanos intra-estromais para correção de irregularidades corneanas, sobretudo no ceratocone, culminando no desenvolvimento do implante e técnica que denominamos "Anel de Ferrara".
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A cirurgia é realizada em bloco cirúrgico com todos os cuidados de assepsia. A anestesia é tópica, através de gotas de colírio anestésico. Após a assepsia da área cirúrgica, que compreende a região dos olhos, nariz e fronte, o rosto é coberto por um campo cirúrgico estéril que tem por finalidade proteger e evitar contaminação. É absolutamente indolor e demora cerca de 10 minutos. Após a cirurgia é aplicada uma lente de contato terapêutica, como curativo. A utilização de colírios antibiótico e anti-inflamatório possibilitarão um pós-operatório mais confortável e seguro. Com 3 dias o paciente pode retornar às suas atividades normais.

A utilização do anel corneano intraestromal é uma alternativa segura e eficaz para tratamento de miopias moderadas e elevadas em pacientes com córneas finas, assim como para tratamento de condições corneanas onde outros procedimentos não funcionam, como nos altos astigmatismos pós ceratoplastia penetrante, instabilidade corneana pós ceratotomia radial, em que o paciente apresenta intenso desconforto devido à flutuação de visão e o ceratocone para o qual não há outra alternativa que não o transplante em pacientes intolerantes a lentes de contato. O Anel Corneano Intraestromal não é apenas mais uma técnica para correção de miopia, e sim, uma nova abordagem terapêutica para problemas oculares que até então não tinham solução satisfatória. Atualmente já são mais de 300 pacientes operados com 95% de sucesso, o que transformou o Anel de Ferrara em referência mundial no tratamento do ceratocone e outras patologias oculares.

Atualmente Paulo Ferrara é também empresário. A Ferrara Ophthalmics é uma das 13 empresas instaladas na incubadora da Fundação Biominas e está produzindo o anel, comercializado no Brasil e no exterior. Há um ano instalada na Biominas, a empresa capacitou 100 médicos no Brasil, Argentina, Portugal e China para a implantação do anel. O anel é produzido de acordo com a demanda, hoje em torno de 50 unidades/mês, ao preço de US$ 500 cada. O médico Paulo Ferrara espera capacitar mais 200 oftalmologistas até o fim do ano e ampliar a produção para 2 mil unidades/ano. Ainda sem data prevista, ele acredita que não deve demorar muito para que sua empresa saia da incubadora e siga seu próprio caminho. O produto da sua empresa é inovador, sem similar no Brasil e no exterior, e tem patente brasileira. Na foto, José Alencar cumprimenta Paulo Ferrara, vencedor do Prêmio FINEP na categoria inventor inovador Finep 2006

Fonte:
http://www.ferrararing.com.br/anel/main.htm
http://www.ferrararing.com.br/veja/materia.htm
http://revista.fapemig.br/3/incubadora/
http://www.saudevidaonline.com.br/ceretacone.htm

acesso em janeiro de 2002
http://www.finep.gov.br/premio/fotos_premiacao_2006/solenidade_planalto/pages/foto_de_joao_luiz_ribeiro_45_jpg.htm

acesso em fevereiro de 2007
http://www.finep.gov.br/imprensa/folha_inovacao//FI025.pdf
acesso em junho de 2008
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