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Um exemplo de resultado da articulação científica para a geração de tecnologia é o trabalho realizado pelo Fundecitrus objetivando o controle do bicho furão, mais uma praga que aflige nossa citricultura. O bicho furão é uma mariposa que deposita seus ovos nos frutos, especialmente maduros, provocando seu apodrecimento e queda. Além de tornar a fruta imprestável, essa larva compromete a qualidade do suco. Nos anos 90, essa praga começou a se alastrar pelos nossos pomares, provocando um prejuízo de aproximadamente US$ 30 milhões/ano. Não se conhecia nada sobre essa mariposa e para combatê-la o produtor pulverizava aleatoriamente os seus pomares. Identificado o problema, a instituição passou a atuar. O Bicho Furão, nome popular da mariposa Ecdytolopha aurantiana, foi descrito pela primeira vez no Brasil em 1915. Provocando perda total do fruto atacado, que cai e apodrece, a praga ganhou o nome de bicho furão porque na sua fase de lagarta fura o fruto e ali se desenvolve, só saindo para se transformar em pupa, de onde emerge o adulto, a pequena mariposa de coloração negra. As mariposas colocam os ovos em frutos maduros ou verdes que estão entre um a dois metros do chão. Costumam colocar apenas um ovo por fruto, geralmente ao entardecer, entre 17 e 20 horas, período ideal para o controle. A praga ataca os frutos em todas as fases da planta e cada fêmea chega a colocar de 150 a 200 ovos durante toda a sua vida. Dos ovos, saem lagartas medindo cerca de 5 milímetros. Elas furam a casca e penetram nos frutos, onde se desenvolvem até chegarem a cerca de 18 milímetros. Durante o seu desenvolvimento no fruto, que pode durar entre 14 a 30 dias, dependendo da temperatura, a lagarta se alimenta da polpa e joga excrementos e restos de sua alimentação para fora - esse material fica endurecido e preso à casca. Os frutos atacados pelo bicho furão tornam-se mais amarelos que os demais e, na sua maioria, caem. O orifício de penetração da lagarta fica evidente. Muitos citricultores confundem as lesões provocadas pelo bicho furão com aquelas decorrentes a ação da mosca da fruta. Saber qual a diferença entre eles ajudará no combate aos dois insetos. A principal diferença entre o ataque do bicho furão é que este, após penetrar no fruto, lança excrementos e restos de alimentos para fora da casca. Esse excremento endurece e fica bem visível, grudado à abertura da casca. O local da fruta atacado pela mosca fica mole e apodrecido enquanto o atacado pelo bicho furão torna-se endurecido. Além disso, o bicho furão consegue se desenvolver em frutos verdes, ao contrário da mosca da fruta. Em 1997, a pesquisa foi encomendada ao professor Dr. José Roberto Postali Parra, especialista em biologia de inseto da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP). Durante 2 anos, o professor Parra trabalhou para identificar os hábitos do bicho furão. Uma de suas descobertas foi que a mariposa só se movimentava à noite, o que mostrou a ineficiência e o desperdício da pulverização com produtos químicos durante o dia. Também foi desenvolvida uma dieta artificial para a praga como forma de monitoramento. Já em 1999, outro cientista foi acionado, dessa vez o professor Evaldo Vilella, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), especialista em desenvolver feromônio sexual (substância química produzida pelas fêmeas que atrai os machos para o acasalamento). Sob a orientação desses dois cientistas, um dos doutores da equipe do professor Evaldo ficou com a tarefa de descobrir e sintetizar a molécula do feromônio. Foi escolhido o laboratório da Fuji Flavor Co., no Japão, o mais bem equipado para o desenvolvimento da sintetização, e para lá seguiu o nosso doutor. Esse trabalho foi realizado em tempo recorde, sendo concluído em apenas 6 meses. O resultado foi a produção de uma pastilha que contém o feromônio sexual do bicho furão utilizado para o controle dessa praga. O monitoramento é feito através do registro do número de machos adultos coletados e, a partir desse número, é indicado o momento exato da aplicação de inseticidas. Durante o ano 2000 foram realizados testes em campo para assegurar a qualidade do produto. Provada sua eficácia, o passo seguinte foi viabilizar a sua comercialização. Outro parceiro foi procurado, dessa vez a Coopercitrus (Cooperativa dos Cafeicultores e Citricultores de São Paulo). Achamos que a cooperativa, por ser uma prestadora de serviços ao produtor, seria a ponte ideal para comercializar o kit do feromônio sexual do bicho furão sem intenção de lucro. O kit é composto por 2 pastilhas (que contém o feromônio sexual do bicho-furão) e mais duas armadilhas contendo "sticky" (cola), onde os machos, atraídos pelo feromônio, ficarão aderidos. Acertada a parceria, em 2001 passamos para a fase de registro e ajuste do produto. Sua liberação pelo Ministério da Saúde aconteceu no final de agosto, e agora a Coopercitrus já está importando a pastilha do Japão para disponibilizá-la ao produtor ainda neste mês. Pacote concluído, fica para a instituição e os pesquisadores envolvidos o papel de treinar os agrônomos da cooperativa para o uso adequado do produto, disseminar a informação para o produtor, e a satisfação de viabilizar para o setor citrícola o controle de mais uma praga através do desenvolvimento de um pacote tecnológico. Nesse exemplo do bicho furão o Fundecitrus financiou todo o projeto que totalizou US$ 200 mil, valor quase que irrisório quando consideramos a importância do problema e dos resultados obtidos. O Professor Parra iniciou a carreira científica como Pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas em 1969, onde permaneceu até 1974, quando foi contratado pelo Departamento de Entomologia da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", ESALQ da Universidade de São Paulo, USP, onde permanece até hoje. Obteve os títulos de Mestre e Doutor em Entomologia na Universidade de São Paulo, ESALQ/USP. Nos últimos anos, vem se dedicando à bioecologia e controle biológico de pragas de Citrus. Como fruto destas pesquisas recebeu o prêmio "Engenheiro Agrônomo, destaque da Citricultura Paulista, versão 2000" em junho, durante a 22ª Semana da Citricultura.Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/cientec/cientec145.htm http://www.abc.org.br/org/aca.asp?codigo=jparra acesso em agosto de 2002 http://www.fundecitrus.com.br/bfurao.html http://www.fundecitrus.com.br/informa.html acesso em novembro de 2002 envie seus comentários para otimistarj@gmail.com. |