Konopothanatus brasiliensis Konopothanatus brasiliensis Konopothanatus brasiliensis

       




Os pedidos de privilégios para medicamentos apresentados entre 1870 e 1910 são inúmeros. Acompanhando-se os pedidos de privilégios relativos ao cólera e à febre amarela, duas sérias enfermidades que acometeram as populações das cidades neste período, observa-se a tentativa dos inventores em solucionar problemas de saúde pública. É interessante notar que grande parte dos medicamentos era apresentada como invenção, e que o memorial descritivo que acompanhava os frascos e amostras dos remédios em geral se distanciava do discurso científico que embasava, por exemplo, as teses apresentadas às faculdades de medicina. A febre amarela, cuja primeira grande epidemia ocorreu em dezembro de 1849, aparece na coleção Privilégios Industriais com quatro pedidos de privilégios que apresentavam propostas para a sua cura e prevenção.

Na década de 1890, já era um princípio tacitamente aceito por todos que a febre amarela era causada por um germe específico. Nesse contexto, questões que eram objeto de polêmicas antigas, como a natureza contagiosa ou não da febre amarela, a imunidade dos nativos etc., adquiriram novos conteúdos. Por outro lado, o consenso básico que existia quanto ao repertório de ações para sanear as cidades deu lugar a controvérsias inéditas com relação à identificação dos elos mais frágeis a romper na cadeia da insalubridade, pondo em questão, por um lado, as supostas propriedades do germe, por outro, os múltiplos interesses dos atores envolvidos no saneamento. A essa época dois bacteriologistas notáveis, Domingos José Freire, descobridor de uma vacina em 1892 e João Batista de Lacerda. Ambos protagonizaram polêmicas em artigos do Jornal do Commercio e a Gazeta de Notícias. Lacerda privilegiou sempre os fóruns acadêmicos e, nos momentos críticos de confrontação, adotou atitudes conciliadoras, procurando salvar do naufrágio suas verdades aproximando-as das idéias dos concorrentes.

Entre os pedidos de patentes relativos à febre amarela, encontra-se um invento proposto pelo médico João Batista de Lacerda. Este foi um importante médico da segunda metade do século XIX, pesquisador do Museu Nacional e um dos pioneiros da ciência experimental do Brasil. Lacerda propunha um preservativo da malária e da febre amarela denominado Konopothanatus brasiliensis "uma combinação em proporções definidas de substâncias de origem vegetal com a propriedade, uma vez derramada e esfregada sobre a pele, de preservá-la da picada dos mosquitos e de suas perniciosas conseqüências". O médico descreve algumas experiências com o seu invento, segundo ele eficazes, realizadas no Laboratório de Biologia do Museu Nacional. Para ele, o medicamento "dispensa essas custosas instalações domiciliares, fechadas com telas de arame, as fumigações com enxofre queimado dentro das casas, a caçada dos mosquitos e larvas nos pântanos, novo suplício de Sísifo, os cortinados e mosquiteiros durante o sono, os véus e as luvas, em horas e horas de trabalho durante o dia". João Batista de Lacerda, um dos primeiros estudiosos dos princípios tóxicos dos reinos animal e vegetal, dedicou-se às pesquisas sobre várias moléstias infecciosas. Acreditava ter descoberto o microrganismo da febre amarela, erro em que também incorreram diversos bacteriologistas, entre os quais Noguchi.

Numa outra pesquisa Lacerda não obteve o mesmo êxito. O desenvolvimento da vacina contra peste manqueira, originou-se de uma solicitação dos pecuaristas de Minas Gerais, onde a peste da manqueira dizimava de 40 a 80% dos bezerros. A epizootia era comum também em outros estados do Brasil e em vários países da América do Sul. Ela já havia sido estudada por João Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional, que chegou a preparar uma vacina mas com resultados insatisfatórios. Oswaldo Cruz entregou a incumbência primeiro a Ezequiel Dias e Rocha Lima, depois a Alcides Godoy que levou a cabo a primeira descoberta notável de Manguinhos.

Na área social, Lacerda foi alvo de polêmicas. Para muitos naquela época (como para alguns ainda hoje), nossas mazelas seriam originárias da presença dos negros, mestiços e índios na composição racial brasileira. A tese original era do diplomata francês Joseph Arthur, conde de Gobineau (1816-1882), autor de uma teoria racial da História e que um dia resultaria no nazismo. Uma visão "benigna" do problema, defendida pelo então diretor do Museu Nacional, o antropólogo João Batista de Lacerda, apostava no "embranquecimento" do povo: em poucas décadas, os sucessivos cruzamentos extinguiriam a raça negra no Brasil...

Com as novas ondas imigratórias no início do século XX, parte da comunidade científica exultava. Em 1911, o diretor do Museu Nacional no Rio, João Batista de Lacerda, proclamava que em um século os mestiços teriam desaparecido do Brasil em razão dos processos de miscigenação e imigração. Esta miscigenação era bem-vinda. O racismo "científico" contagiava um grupo considerável de profissionais de saúde pública.Ideologicamente, o branqueamento é a associação do negro a tudo o que é ruim e feio e, por outro lado, a associação do branco a tudo o que é bom e bonito. Politicamente, o branqueamento se caracterizou por uma legislação favorável à imigração de europeus; à oferta de condições econômicas, de educação e de trabalho melhores para os europeus e seus descendentes, e ao mesmo tempo, por uma ausência de atenções para com a população negra. Em 1911, o diretor do Museu Nacional, João Batista de Lacerda, que representava o Brasil no 1º Congresso Universal de Raças, em Londres, apresentava a política brasileira afirmando que "já que se viram filhos de mestiços apresentarem, na terceira geração, todos os caracteres físicos da raça branca, (...) é lógico esperar que, no curso de mais um século, os mestiços tenham desaparecido do Brasil"; isso iria coincidir com "a extinção paralela da raça negra em nosso meio" pois, desde a Abolição, os negros tinham ficado "expostos a toda espécie de agentes de destruição e sem recursos suficienciais para se manter".

Na década de 1920, seu sucessor no museu, o médico e antropólogo Edgard Roquette-Pinto, já tinha uma visão mais avançada. Ele mediu e analisou militares de quartéis localizados nas cercanias da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, com equipamentos de medidas antropométricas (balanças, réguas especiais, escalas de tipos de cabelo e cor da pele) para demonstrar que o processo de miscigenação não alterava as proporções corporais nem a capacidade mental. Ou seja, os mestiços não eram tipos degenerados, idéia que causou polêmica ao ser apresentada no Congresso Brasileiro de Eugenia de 1929: "Nenhum dos tipos da população brasileira apresenta qualquer estigma de degeneração antropológica", escreveu ele.

No período compreendido entre o final do século passado e meados da década de 1920, denominado por Stutevart "a era dos museus, as instituições museológicas em geral vão assumir papel relevante enquanto locais de ensino e de produção científica. 0 fenômeno, que o autor observa na Europa, pode ser seguramente estendido à realidade brasileira, tendo em vista que é nessa época, também entre nós, que se dá a criação e a consolidação de grandes instituições, como o Museu Nacional, criado em 1818 e impulsionado pela direção de Batista Lacerda (1895/1915), o Museu Paraense, de 1866, sob direção de Emílio Goeldi (1893/1907), e o Museu Paulista, fundado em 1894 e, desse ano a 1916, sob a direção de Herman von Bhering. O Museu Nacional, após a administração de Batista Lacerda (1915), entrou em declínio por razões que o próprio Lacerda já havia apontado: a falta de uma formação técnica experimental, a falta de vocação empírica dos jovens, a "avareza com que o governo remunera os trabalhos em ciência, reduzindo o cientista a uma condição pior do que a de um caixeiro-viajante de segunda categoria".

Fonte:
http://www.coc.fiocruz.br/hscience/vol3n2/fon32.html
http://www2.prossiga.br/ocruz/Trajetoria/dirmanguinhos/22metamorfose/producao.htm
http://www.sjsocial.org/relat/155.htm
http://www.tvebrasil.com.br/radiomec/acervo/meio.htm
http://www.proinfo.es.gov.br/ntevitoria/SilvaM/DOEN%C3%87AS/febamarela.htm
http://www.airbrasil.org.br/simon/matrizes.htm
http://www.minc.gov.br/textos/olhar/osmuseus.htm
http://www.pontox.com.br/marrom/clip/clipmarrom_20122000_001.htm

acesso em outubro de 2002
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