Manitol Manitol Manitol

       




Medicamento já conhecido pelos médicos e utilizado em unidades de terapia intensiva nos casos de coma profundo, o manitol está mudando o destino de muitas pessoas que teriam a morte cerebral decretada. A diferença é que agora o doente recebe o remédio já no pronto-socorro, antes de ir para a UTI, e a dose empregada é o dobro da convencional. A descoberta em relação à eficiência da alta dose é resultado de um trabalho conduzido pelo neurocirurgião Julio Cruz, diretor da Central Internacional de Neuroemergências e professor orientador de pós-graduação da Unifesp. A pesquisa avaliou 141 pacientes em coma profundo que deram entrada em pronto-socorro de oito hospitais do Brasil, da Itália e do Japão. Todos apresentavam lesões cerebrais graves, envolvendo inchaço e hemorragia, causadas por trauma. Em 80% dos casos, os pacientes tinham uma das pupilas dilatadas (o que significa chances de sobrevivência de no máximo 40%). Os outros 20% apresentavam dilatação das duas pupilas, o que, até então, era sinal de risco de morte iminente. Era, até saírem os resultados da pesquisa de Julio Cruz, publicada em setembro de 2002 na revista norte-americana Neurosurgery.

Entre 1997 e 2001, Cruz dividiu os pacientes em dois grupos. O primeiro, composto por 72 pessoas, recebeu uma alta dose do remédio injetável, na proporção de 1,4 grama por quilo de peso (g/kg) e o segundo, com 69 pessoas, a dose convencional (0,7 g/kg). Ambos os grupos receberam o medicamento já no pronto-socorro e tiveram acompanhamento médico durante seis meses após o trauma. Entre as pessoas nas quais foi administrada a dose normal, 36,2% sofreram morte cerebral. A taxa de mortalidade caiu para 19,4% entre os doentes que receberam a dosagem mais elevada de manitol. Outro indicador do bom desempenho da megadose do manitol foi a recuperação dos pacientes: 61% retomaram suas atividades cotidianas normalmente ou com seqüelas mínimas, contra apenas 33% do grupo da dose convencional.

Além do já conhecido benefício do manitol, de reduzir a pressão intracraniana, a equipe coordenada por Julio Cruz descobriu outras duas propriedades: ele aumenta o fluxo sangüíneo e a oxigenação do cérebro. O achado é importante, segundo o pesquisador, porque, assim como a pressão intracraniana, esses dois fatores alterados levam à morte cerebral do paciente. Italo Suriano, coordenador do pronto-socorro de neurocirurgia do Hospital São Paulo (HSP), conta que a dose elevada do manitol vem sendo empregada há um ano no HSP. “Adotamos uma série de condutas para melhorar o estado do paciente em coma, como monitorar sua oxigenação cerebral, equipar a UTI e também, em alguns casos, administrar a alta dose do medicamento. São vários os fatores associados à recuperação do doente. Até o momento, porém, não tenho dados estatísticos do hospital que me permitam afirmar que [a megadose de manitol] seja o diferencial. Mas tenho a impressão de que o paciente está evoluindo mais rapidamente quando tratado com o medicamento”, diz Suriano. Julio Cruz já arrisca novas indicações.

“Ainda serão necessários novos estudos, mas, no futuro, a alta dose do manitol poderá ser indicada nos casos de coma causados por afogamento, derrames e meningites graves.” O tempo costuma se revelar um dos principais aliados – ou inimigos – das pessoas em coma. Da chegada ao pronto-socorro ao atendimento na UTI, o paciente pode amargar uma espera de até quatro horas, ao passo que trinta minutos podem ser suficientes para levar à morte cerebral. “É uma regra da medicina: quanto mais cedo o doente sair do coma, melhor será sua recuperação e menor o risco de ficar com seqüelas”, alerta o pesquisador.

O neurocirurgião Júlio Cruz passou a ser um dos 200 maiores intelectuais do mundo, de todas as áreas, após receber, no início do ano, a Ordem de Excelência do Século XXI, do Centro Biográfico Internacional de Cambridge, Inglaterra. Cruz, que é professor da Universidade Federal Paulista (Unifesp) e presidente da Central Internacional de Neuro-Emergências, comanda desde 1985 uma pesquisa com pacientes em estado de coma. Ele descobriu que a aplicação otimizada e rápida — já no pronto-socorro — do medicamento manitol em pacientes em estado de coma pode aumentar de 20% para 76% o índice de sobrevivência. Cruz publicou 55 artigos científicos, em revistas indexadas o que, segundo a Medline (base de dados da Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA), representa o maior número de publicações na área de neurociência. Na edição de julho de 2004, a revista Ciência e Cultura publicou uma matéria sobre o trabalho de Júlio Cruz, intitulada "Superdose reduz morte cerebral em pacientes em coma".

Fonte:
http://www.unifesp.br/comunicacao/jpta/ed176/pesquisa1.htm
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252005000200011&script=sci_arttext&tlng=pt
http://www.br.inter.net/especiais/exibe_noticia.php?id_noticia=132721
acesso em junho de 2005
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