Sequenciamento do DNA do Schistosoma mansoni Sequenciamento do DNA do Schistosoma mansoni Sequenciamento do DNA do Schistosoma mansoni

       




Sergio Verjovski-Almeida coordenou a pesquisa que decifrou os genes do parasita causador da esquistossomose, Schistosoma mansoni, que provoca a esquistossomose e afeta dez milhões de brasileiros e 200 milhões de pessoas em 74 países. O estudo divulgado em setembro de 2003 reuniu 36 pesquisadores liderados por Sergio Verjovski-Almeida, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo. "O sequenciamento vai permitir o desenvolvimento de uma vacina dentro de cinco a dez anos", explica. O Instituto Butantan já trabalha num projeto piloto para testar vacinas usando os genes identificados. Financiadora do estudo, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) solicitou um pedido de patente internacional para os genes mais promissores. "As patentes atraem parcerias comerciais e evitam que as informações sejam apropriadas indevidamente", diz José Fernando Perez, diretor científico da Fapesp.

O Governador Geraldo Alckimin anunciou no dia 15 de setembro a conclusão do seqüenciamento de 163.000 ESTs (seqüências expressas), o que cobre cerca de 92% dos 14 mil genes que devem compor o DNA do Schistosoma mansoni, parasita causador da esquistossomose. Os resultados do projeto, que foi coordenado pelo Dr. Sérgio Verjovski-Almeida, Professor Titular do Departamento de Bioquímica, serão publicados na edição de outubro da Nature Genetics. O trabalho teve início em abril de 2001, quando a Fapesp decidiu investir US$ 850 mil no seqüenciamento do Schistosoma mansoni, num anúncio feito na abertura da Brazilian International Genome Conference, que reúne 50 especialistas de todo o mundo. O trabalho, coordenado por Sergio Verjovski-Almeida, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, envolveu sete grupos de pesquisa, quatro na USP, um de bioinformática, da Unicamp, além de equipes do Instituto Butantã e do Instituto Ludwig. SEgundo o corrdenador em 2001 existiam 12mil segmentos de DNA do esquistissoma seqüenciados. O objetivo era o de elevar esse número para 120 mil.

O trabalho tinha previsão de 12 a 18 meses e se concentrou na cercária, a fase de vida do parasita em que ocorre a infestação do ser humano. A esquistosomose é endêmica em algumas regiões do Nordeste e Centro-Oeste. O parasita, que infesta caramujos em lagoas, penetra no organismo através da pele, cai na circulação e põe ovos capazes de bloquear artérias, principalmente a veia porta, do fígado, dando origem à chamada "barriga d´água". O paciente costuma sofrer de insuficiência hepática e desnutrição. O seqüenciamento do genoma do esquistossoma foi feito a partir de cópias do DNA do parasita, o chamado DNA complementar ou cDNA. Neste procedimento, o RNA mensageiro é isolado e usado para produzir a seqüência de DNA que o complementa. A vantagem é que, assim, os pesquisadores têm a certeza de estarem trabalhando com uma seqüência de DNA que efetivamente expressa uma proteína. A estratégia é identificar possíveis alvos nessas seqüências - ou seja, uma região provavelmente associada ao caráter patogênico do parasita sobre a qual é possível agir, com vacinas ou drogas.

Em entrevista de 2001 o coordenador declarava seu otimismo: "Esperamos ter esses alvos dentro de um ano e iniciar os testes com medicamentos ou vacinas", explica o pesquisador. O Schistosoma mansoni tem 8 cromossomos e há equipes internacionais trabalhando no estudo do cromossomo 3, que contém genes com várias proteínas expressas no parasita adulto. "Esse genoma tem 300 milhões de pares de bases e é dez vezes maior que o do C. elegans e da Drosophila melanogaster", diz o pesquisador. Segundo ele, esse é o melhor caminho para o estudo dos problemas que afetam especificamente a saúde do brasileiro. Verjovski-Almeida lembra que há pouco empenho do Primeiro Mundo no estudo de microrganismos tropicais. "Os americanos até se interessam pela malária, mas só porque num conflito ou outro seus soldados podem ser infectados", diz.

"Queríamos mostrar que uma estratégia genômica pode ser tão importante para combater uma doença típica de Terceiro Mundo quanto a educação e a prevenção", diz Sérgio Verjovski-Almeida, 53, pesquisador do Instituto de Química da USP e coordenador do estudo. Para examinar somente os genes ativos do verme, a equipe criou as chamadas ESTs (etiquetas de sequências expressas), geradas a partir do mRNA, ou RNA mensageiro. É essa molécula que põe em ação as informações contidas no DNA e inicia a produção de proteínas na célula. Por isso, as ESTs (cópias em formato DNA do mRNA) são capazes de mostrar quais genes estão mesmo ativos. As mais de 163 mil ESTs produzidas por Verjovski-Almeida e seus colegas traçam um retrato bizarro desse velho inimigo da humanidade, cujos traços podem ser encontrados até em múmias egípcias. Para começar, apesar de ser verme, ele parece estar geneticamente mais próximo dos insetos: "Na verdade, ele lembra mais a drosófila [pequena mosca muito usada em experimentos genéticos] do que o C. elegans, que é outro tipo de verme", afirma o pesquisador da USP.

Esse é apenas um dos paradoxos do esquistossomo. Embora seja um animal muito primitivo, ele já tem esboços de quase todas as características que existem em seus parentes mais evoluídos, como os sistemas nervoso e hormonal. Ao mesmo tempo, o ciclo de vida da criatura inclui coisas impensáveis para a maioria dos outros animais, como o fato de a fêmea se alojar no interior do corpo do macho quando eles são adultos. A esperança dos pesquisadores é poder manipular características específicas do S. mansoni para criar novos medicamentos e vacinas. O praziquantel, medicamento mais utilizado hoje contra o parasita, é incapaz de impedir que as pessoas sejam reinfectadas pelo verme e já gerou linhagens resistentes do esquistossomo. Um dos caminhos interessantes, sugere Verjovski-Almeida, seria tentar interferir numa espécie de cortina de fumaça que o verme lança no sistema de defesa do organismo. Ele secreta substâncias muito parecidas com o veneno de vespas e inicia uma resposta alérgica no hospedeiro, impedindo que as células do sistema imune o identifiquem como invasor.

Outra molécula produzida pelo animal, parecida com uma toxina de veneno de cobra, impede que o sangue do doente coagule ao redor do verme (que vive imerso na corrente sanguínea). De acordo com a bioquímica Luciana Cézar de Cerqueira Leite, 44, do Centro de Biotecnologia do Instituto Butantan, os dados genômicos já estão sendo aplicados em possíveis vacinas. "Oito moléculas foram testadas em camundongos, e duas delas mostraram resultados animadores", afirma. Uma das substâncias aparece na membrana das células do parasita, e outra interage com o sistema imune (de defesa) do hospedeiro.

Fonte: http://verjo2.iq.usp.br/The_Laboratory.htm
http://verjo18.iq.usp.br/schisto/
http://www.estadao.com.br/ciencia/noticias/2001/mar/26/257.htm
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u10107.shtml
acesso em setembro de 2003
REVISTA ISTO É DATA: 24/09/03 ON-LINE "Riqueza ameaçada"
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