Complexo LDE-quimioterápico Complexo LDE-quimioterápico Complexo LDE-quimioterápico

       




O reconhecimento para o endocrinologista paraense Raul Maranhão, 55 anos, chefe do setor de lipídios do Instituto do Coração de São Paulo (Incor), veio no final de 1996 na forma de um comunicado do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Ele conseguiu a patente para seu Complexo LDE-quimioterápico, um tratamento para o câncer praticamente livre de efeitos colaterais. A partir do trabalho dos americanos Michael Brown e Joseph Goldstein, que ganharam o Prêmio Nobel de Medicina, Maranhão descobriu que as células humanas possuem receptores especiais para uma lipoproteína de baixa densidade chamada LDL. Logo após, desenvolveu uma partícula artificial batizada de LDE, com a mesma estrutura do LDL e capaz de carregar drogas quimioterápicas e levá-las seletivamente ao interior das células cancerosas, poupando as células sadias dos efeitos tóxicos do remédio. No início dos anos 90, descobriu, em um estudo, provas de que as células cancerígenas abrigam receptores de LDL em quantidades até 100 vezes maiores que as normais. A solução era introduzir as drogas quimioterápicas em seu LDE e injetar o material no sangue. "A LDE realiza um sonho dos especialistas no combate ao câncer, o de ter um veículo que dirija o medicamento às células doentes e preserve as sãs", resume.

"Nosso objetivo não era criar uma nova droga, mas transformar as que já existiam no mercado", alerta Maranhão. O princípio dessa transformação é 'envolver' drogas anticâncer com partículas lipoprotéicas de baixa densidade, para administrá-las diretamente na corrente sangüínea. Essas partículas são produzidas a partir de técnicas de ultra-som. Inicialmente, a substância lipoprotéica é submetida a uma vibração muito intensa para formar unidades bem pequenas (com cerca de 4 x 10-8 metros de diâmetro) e de baixa densidade, que são em seguida separadas por centrifugação em alta velocidade e incubadas com as drogas.

Maranhão promete trazer novas armas para o combate à arteriosclerose e às doenças cardíacas. "Estamos pesquisando os efeitos produzidos por partículas constituídas dos lipídios da gordura, que o organismo absorve a partir dos alimentos. Essas partículas são chamadas de quilomícrons", explica o cientista. "Suspeita-se há tempo que os quilomícrons possuem papel importante na formação da arteriosclerose e das doenças do coração, mas faltava um método para medir a quantidade dessas partículas no organismo. Nós acabamos de criá-lo."

O Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas agora é acionista de uma empresa americana de alta tecnologia. O contrato foi formalizado ontem e teve como ponto de partida uma partícula criada pelo pesquisador do Incor Raul Maranhão, a LDE. O instituto entrou com a patente da partícula e os demais investidores, com o dinheiro. Batizada de iCell Therapeutics Corp., a empresa cuja sede será em Vancouver, no Canadá, foi criada para desenvolver produtos e pesquisa a partir da LDE. As expectativas são grandes: captação de US$ 50 milhões em quatro anos. É esse o período também estimado para que a iCell seja transformada em uma empresa de capital aberto, com venda de suas ações na Nasdaq.



A LDE pode ser considerada como o cavalo de Tróia terapêutico. Ela ingressa no tecido doente do organismo, com medicamentos escolhidos. Isso é possível graças a sua estrutura, semelhante ao LDL humano, proteína cuja função é transportar colesterol para dentro da célula. Pesquisas demonstraram que o número de receptores de LDL em células cancerígenas é muito maior do que nas normais. Resultado: doses maiores dos medicamentos em tese poderiam ser administradas, pois a maior parte da substância seria absorvida apenas pelo tecido doente.

Uma pesquisa feita com 150 pacientes resistentes à quimioterapia mostrou que o caminho está correto. Doses altas de quimioterápico inseridas na LDE foram aplicadas nos pacientes. Os efeitos colaterais foram baixos, diante da dosagem do medicamento: até três vezes maior do que o máximo usualmente indicado. Agora, pesquisas com mais duas drogas quimioterápicas estão sendo realizadas.

"A idéia é combinar a LDE com material radioativo para fazer diagnóstico e, em outra etapa, como um veículo para a terapia genética", afirma o presidente da empresa, Kito Tosetti. Ele afirmou que a empresa deverá, com o tempo, conceder patentes para as aplicações da LDE que possam surgir.

No início de 2001, o diretor-presidente do InCor, professor José Franchini Ramires apresentou ao Conselho Curador da Fundação Zerbini o projeto de “desenvolvimento e posterior comercialização do LDE, caracterizado como uma nova tecnologia no diagnóstico e tratamento de câncer a ser realizado através de uma joint-venture entre a empresa norteamericana iCell Therapeutics Corp., a Fundação Zerbini e o InCor”.

O projeto foi aprovado, “pois permite obter recursos para explorar patente existente”. O presidente do InCor ora aponta a iCell como a empresa parceira da Fundação Zerbini na jointventure, ora como a própria joint-venture: “A criação da iCell se configurou numa saída para o baixo interesse e alto custo para a indústria nacional nesse tipo de parceria”. De acordo com o professor, “a Universidade e o hospital universitário não têm estrutura para desenvolvimento e muito menos comercialização dos produtos gerados na pesquisa, mesmo porque não é esta a sua missão”, de modo que “a cooperação universidade-empresa pode ser um caminho para viabilizar o repasse dos ganhos da pesquisa na Academia para a sociedade”.

O desenvolvimento de uma nova droga terapêutica dura, diz ele, entre cinco e dez anos, no mínimo, e envolve uma série de fases de estudo até sua comercialização. “Esses investimentos somam em média US$ 300 milhões para um único medicamento. É um investimento de alto risco que as indústrias brasileiras não têm apresentado interesse ou condições de assumir”. “A partícula foi desenvolvida por pesquisadores do InCor”, afirma. “A LDE serve de veículo para quimioterápicos e substâncias radioativas no diagnóstico e tratamento de câncer e, futuramente, poderá ser aplicada como transporte de agentes terapêuticos genéticos de baixa toxicidade, um dos grandes desafios da indústria farmacêutica no momento.

Produzida artificialmente em laboratório, a LDE é semelhante ao LDL humano e é capaz de transportar quimioterápicos diretamente para dentro de células cancerígenas, poupando células sadias. A partícula também é capaz de transportar substâncias radioativas, auxiliando no diagnóstico de tumores”. O professor utilizou uma frase enigmática para concluir sua resposta à pergunta sobre a repartição dos eventuais lucros com a comercialização da LDE: “A Fundação Zerbini tem dado apoio a projetos do Hospital das Clínicas da FMUSP, tendo repassado nos últimos seis anos cerca de R$ 35 milhões. Portanto, tem cobrado apoio.”

Fonte: http://www.terra.com.br/istoe/politica/143427.htm
http://www.biologianarede.hpg.ig.com.br/atualidades/ciencia3.htm
http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2001/02/10/ger494.html
http://www.uol.com.br/cienciahoje/chdia/n407.htm
http://www.terra.com.br/istoe/capa/142618.htm
acesso em dezembro de 2001
Revista Adusp, dezembro de 2001 http://www.adusp.org.br/revista/24/p93_98.PDF
Cronologia do Desenvolvimento Científico e Tecnológico Brasileiro, 1950-200, MDIC, Brasília, 2002, páginas 284
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