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"Se o Brasil não acabar com a saúva, a saúva acaba com o Brasil". A frase, do pesquisador francês Yves Saint-Hilaire, dita no início do século passado, pode até ser um exagero, mas a verdade é que, até hoje, as saúvas são verdadeiras pragas agrícolas. E apesar de serem importantes na reciclagem de nutrientes e na fertilização do solo, possuem um alto poder de destruição. Matar a rainha é a única maneira de acabar com a colônia. Isso envolve um pouco de sorte, porque ela pode estar em qualquer parte do formigueiro. No caso das saúvas, essa fortaleza subterrânea pode se extender por 100 metros quadrados, com até 6 metros de profundidade. Espaço suficiente para 20 milhões de formigas, sob o comando de uma única rainha. As saúvas atacam plantações de citros, pinus, eucalipto e cana-de-açúcar. Nas duas últimas, acarretam perdas de até 15% na produção. Elas ocorrem em toda a América do Sul, com exceção do Chile, onde não conseguiram chegar por causa dos Andes. Pegue algumas folhas de mamona, tempere com sementes de gergelim, acrescente alguns ácidos graxos de plantas variadas e o resultado pode ser um coquetel mortífero para as formigas saúvas, uma das principais pragas de solo do setor agrícola na América do Sul. A mistura está sendo estudada por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como alternativa aos defensivos químicos tradicionais. Além de ser menos persistente e oferecer riscos ao meio ambiente, o composto natural combina agentes inseticidas e fungicidas, que atacam tanto as formigas quanto os fungos que servem de alimento para as larvas e para a rainha no formigueiro. Os pesquisadores selecionaram os ingredientes para o pesticida a partir de 15 plantas que repelem as saúvas naturalmente. Da folha da mamona, extraíram a ricinina; e da semente de gergelim, a sesamina. A curamina foi retirada de frutas cítricas e os ácidos graxos, de várias outras plantas. "Estamos estudando as combinações mais ativas contra as formigas", disse o coordenador da pesquisa, João Batista Fernandes, do Departamento de Química da UFSCar. O resultado mais importante e recente da pesquisa, que vem sendo realizada desde 1991, foi o isolamento de um alcalóide tóxico e de gosto amargo, encontrado nas folhas da mamona, que possui atividade formicida (mata as formigas) e, quando associado à sesamina, fungicida (destrói o fungo). Outras plantas que estão sendo estudadas, além da mamona e do gergelim, são a batata-doce (Ipomoea batatas), a fava branca (Canavalia ensiformis) e a Virola sebifera, planta facilmente encontrada no país e rejeitada pelas formigas. Todas essas plantas possuem ação fungicida e formicida e estão passando por testes laboratoriais, na tentativa de se encontrarem outras substâncias ativas, além dos ácidos graxos, que vêm se destacando nos estudos. "Por enquanto, o maior potencial de uso está na mamona, porque o alcalóide que está sendo isolado tem uma atividade bastante ampla em pequenas concentrações", diz o químico João Batista Fernandes, professor titular da UFSCar e coordenador geral do projeto. O estudo com o gergelim é o mais antigo. Ele foi identificado como tóxico para sauveiros ainda na primeira metade deste século. Suas folhas são as preferidas das formigas saúvas. Mas observou-se que, quando a formiga levava folhas de gergelim para o interior do formigueiro, ele definhava. A partir daí, os pesquisadores começaram a supor que a planta tivesse alguma substância tóxica, que agisse sobre as formigas, sobre o fungo ou sobre ambos. "Verificou-se que a mistura de ácidos graxos age sobre os fungo, mas ainda não foi determinado qual ou quais são os ácidos mais ativos. Por isso, estamos testando-os individualmente e também outras substâncias", diz Fernandes. Segundo ele, as plantas objetos da pesquisa foram selecionadas a partir de informações obtidas na cultura popular sobre a sua utilização em controle de saúvas. Testes em laboratório indicam que as substâncias podem ser tão eficazes quanto a sulfluramida, o pesticida mais usado para o controle de formigas. Com a vantagem de ser um produto 100% natural, podendo ser usado até em plantações orgânicas. Assim como os inseticidas tradicionais, o composto pode ser aplicado por termonebulização (misturado com vapor de água quente) ou na forma de iscas atrativas, que são carregadas para dentro do formigueiro pelas próprias formigas. Em ambos os casos, a dosagem correta do inseticida é essencial. "Se o veneno for forte demais, você mata as formigas no início do formigueiro e não chega até a rainha", explicou Fernandes, cuja pesquisa já dura dez anos. "O formigueiro fica dormente por um tempo, mas depois volta." O pesquisador explica que as formigas só levam para o formigueiro plantas aceitas pelo fungo e não nocivas a elas próprias. "Somente algumas plantas, como as que estamos estudando, conseguem "enganar" as saúvas. Elas deterioram o formigueiro. Daí a importância de se descobrir quais as substâncias tóxicas contidas nos extratos dessas plantas e como elas agem". As formigas vivem em simbiose com um fungo, que serve como principal alimento para a rainha e para as larvas. As folhas cortadas servem de substrato para o desenvolvimento do fungo. "É como se elas formassem uma horta para alimentar a colônia. Quando corta a folha, a formiga ingere um pouco da seiva; entretanto, as crias se alimentam apenas do fungo. Se o fungo regredir, o formigueiro morre", explica o pesquisador. Os pesquisadores concluíram que todas as plantas estudadas: fava branca, mamona, gergelim, batata-doce e Virola sebifera possuem principalmente a característica de fungicida, ou seja, elas destróem o fungo. As substâncias ativas encontradas nessas plantas, com exceção da Virola, são os ácidos graxos. A substância encontrada em V. sebifera mais ativa foi sesamina, da classe de substâncias das lignanas. Mas a que se mostrou mais favorável até agora, segundo o coordenador do projeto, foi o alcalóide encontrado na mamona, porque ele apresenta ação fungicida e inseticida, além de a planta ser facilmente encontrada na natureza, facilitando e barateando uma possível futura produção industrial do defensivo. A substância descoberta na mamona se mostrou ativa na mesma proporção dos mais modernos inseticidas artificiais, lançados no mercado na forma de isca. Além disso, a substância pode ser facilmente sintetizada, segundo Fernandes. "Nós também vamos tentar fazer modificações sintéticas a partir desse alcalóide, que podem levar a compostos menos tóxicos para os homens e para os animais e ampliar a sua ação inseticida para formigas". O alcalóide já está sendo testado para aplicação em forma de iscas granuladas. São pequenas cápsulas, externamente compostas por substâncias atrativas às formigas, para que elas as carreguem para o formigueiro, que levam em seu interior a substância ativa. Dentro do formigueiro, as iscas podem agir sobre os insetos ou sobre o fungo. Joao Batista Fernandes possui graduação em Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão pela Universidade de São Paulo (1971) e doutorado em Química Orgânica pela Universidade de São Paulo (1976). Atualmente é professor titular da Universidade Federal de São Carlos. Tem experiência na área de Química, com ênfase em Química dos Produtos Naturais, atuando principalmente nos seguintes temas: produtos naturais, formigas cortadeiras, rutaceae, meliaceae e atta sexdens.Fonte: http://www.fapesp.br/quimica.htm http://www.estadao.com.br/ciencia/noticias/2002/mai/13/25.htm acesso em fevereiro de 2003 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4780237Z8 http://www.dq.ufscar.br/index.php?option=com_content&task=view&id=46&Itemid=37 acesso em setembro de 2009 envie seus comentários para otimistarj@gmail.com. |