Vitrificação de ovócitos Vitrificação de ovócitos Vitrificação de ovócitos

       




Pioneirismo é uma palavra corriqueira no vocabulário do Laboratório de Reprodução Animal Professor Assis Roberto de Bem, no Centro de Ciências Agroveterinárias da Universidade do Estado de Santa Catarina (CAV/Udesc). A busca pela inovação do grupo sediado em Lages (SC) foi premiada com o nascimento de Victra, no último dia 24 de dezembro, e de Glacial e Nitro, nos dias 2 e 18 de fevereiro de 2002 (foto ao lado). Eles são os primeiros bezerros do mundo gerados a partir de ovócitos (óvulos imaturos) vitrificados, que é uma forma de congelamento ultra-rápido. A nova técnica representa um grande avanço nos sistemas de reprodução animal assistida. Em condições naturais, uma vaca com carga genética excepcional pode gerar seis a oito crias em toda a sua vida. Com a superovulação podem ser obtidos até 60 filhotes do mesmo animal num período de 12 meses, por meio do implante dos embriões em "barrigas de aluguel". Já a retirada e congelamento de ovócitos por vitrificação permite a produção de até 100 bezerros em um ano, compara o coordenador do projeto, Alceu Mezzalira. Os resultados podem ainda ser ampliados com a retirada de ovócitos de bezerras com idade a partir de três meses.

Os custos também são reduzidos devido à simplificação dos procedimentos de campo e laboratório, informa Mezzalira. A cada coleta são retirados de seis a 10 ovócitos. O método ultra-rápido tradicional exige que os ovócitos, uma vez coletados, sejam encaminhados ao laboratório, num prazo máximo de quatro horas, para congelamento. Com o uso da vitrificação, os ovócitos podem ser congelados (criopreservados) no mesmo local onde são coletados. Somente quando for reunida uma grande quantidade de ovócitos é que eles serão encaminhados ao laboratório, no qual será feita primeiro a maturação e depois a inseminação in vitro. Uma dose de sêmen é suficiente para toda a rotina, seja ela para 10 ou 300 óvulos. Isso significa que quanto maior a quantidade de gametas femininos inseminados por vez, maior é a economia de trabalho e dinheiro, ressalta o coordenador. Outra vantagem da vitrificação de ovócitos está relacionada à preservação de material genético de animais em risco de extinção, permitindo a recomposição dos grupos, pois uma vez congelados os organismos estão preservados por tempo indefinido. Algumas características genéticas do gado Crioulo Lageano, por exemplo, como a maior adaptação a clima tropicais e subtropicais, podem vir a ser úteis daqui a 100, 200 anos ou mais, explica Mezzalira. "O nosso maior patrimônio é a biodiversidade", afirma. Além disso, a metodologia pode ser perfeitamente adaptada para outras espécies.

Victra é o terceiro bezerro do mundo e o primeiro da América do Sul obtido a partir de ovócitos criopreservados, mas é também o primeiro do mundo nascido a partir de um ovócito vitrificado. "É uma pequena diferença, mas a vantagem é enorme, pois esta é uma técnica muito mais promissora", afirma Mezzalira. Um ovócito não pode ser congelado por métodos convencionais, porque é muito sensível ao resfriamento. É necessário que o processo seja rápido o bastante para evitar que ele entre em degradação devido a formação de cristais de gelo no interior da célula. Além disso, a técnica tradicional de congelamento ultra-rápido exige uma infra-estrutura laboratorial e equipamentos avaliados em torno de US$ 10 mil. Já a técnica de vitrificação baseia-se na imersão dos ovócitos em soluções de viscosidade crescente, o que deixa as células com "aspecto de vidro" após o congelamento. O processo não necessita de um freezer programável nem de grande infra-estrutura, podendo ser realizada em campo, e leva cerca de 15 minutos. Para eliminar qualquer contestação quanto ao ineditismo da metodologia, nasceram Glacial e Nitro, os primeiros e únicos bezerros obtidos de embriões congelados por vitrificação, provenientes de ovócitos também vitrificados. Depois de passar por todo o processo (coleta, vitrificação, descongelamento, maturação in vitro e inseminação in vitro), os embriões foram vitrificados, descongelados e implantados em barrigas de aluguel. "A possibilidade de vitrificar embriões é fabulosa, pois evita o desperdício", comenta o coordenador. Se a taxa de fertilização de óvulos for acima da esperada, os embriões excedentes podem ser preservados até que sejam preparadas novas barrigas de aluguel.

No entanto, os criadores terão que esperar de um a dois anos para se beneficiarem com a técnica, calcula Mezzalira. Os resultados atuais ainda são insuficientes para viabilizar economicamente o método. O ideal seria uma taxa de aproveitamento entre 25% e 30%, enquanto hoje são obtidos apenas 6,2 embriões a cada cem ovócitos - índice que mesmo assim é o dobro do resultado obtido por outros grupos de pesquisa do mundo. No Brasil, a criopreservação é estudada pela Udesc, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de Pelotas (UFP), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e algumas empresas privadas. Os três bezerros são fruto de um projeto de parceria com a UFSM, executado pelo mestrando Arnaldo Diniz Vieira. Todos os trabalhos foram coordenados pelo professor Mezzalira e desenvolvidos no Laboratório de Reprodução Animal do CAV/Udesc, em Lages, que conta com os serviços de mais dois professores pesquisadores e oito estudantes de graduação. O projeto ainda teve o apoio de frigoríficos da região (os ovócitos foram retirados de vacas encaminhadas para o abate) e produtores locais, além do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Fonte:
http://www.revistanexus.com.br/idnova2.php?not=8
acesso em abril de 2003
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