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Na Microsoft, novo desafio é abrir espaço nas 'três telas'
Valor Econômico, 30/03/2009
João Luiz Rosa, de São Paulo
Com o sistema operacional Windows e o pacote de programas de produtividade Office, a Microsoft tornou-se uma das forças dominantes no mundo dos computadores, como uma influência que parece longe de se extinguir. Os sites de tecnologia divulgaram com destaque, no fim do ano passado, que pela primeira vez a participação de mercado do Windows caíra para menos de 90% no mundo, mas a verdade é que o pedaço da Microsoft ainda é muito maior que o dos concorrentes: em fevereiro, o Windows detinha 88,42% de participação, contra 9,61% do Mac OS, da Apple, e 0,88% do Linux, segundo a Net Applications, uma empresa cujas pesquisas se baseiam no acesso das pessoas a internet.

Isso não quer dizer, porém, que a Microsoft não tenha problemas à sua altura. É o caso do que se poderia chamar de o desafio das três telas, como sugere Brad Smith, o principal executivo da companhia para assuntos legais e inclusão digital. "Há uma tela na parede, uma na mesa e uma no bolso", diz o executivo, numa referência à televisão, ao computador e ao celular. Cada vez mais esses aparelhos estão se cruzando e, embora não se saiba ainda qual será o resultado final dessa combinação, a Microsoft terá de encontrar uma maneira de tornar-se relevante nesse novo cenário, e não apenas em uma parte dele. "É uma história mais ampla. Fazemos software para computador, mas o computador mudou para tornar-se parte de quase tudo", afirma Smith. "Hoje isso é uma mesa", diz o executivo, batendo levemente na enorme mesa que domina uma sala de reuniões na sede da companhia. "Não sei o que vai ocorrer em quatro anos, mas daqui a dez anos essa mesa com certeza também será uma tela."

O assunto interessa diretamente a Smith porque é ele quem cuida da propriedade intelectual da Microsoft. Essa tem sido uma área de muito movimento na companhia. Em janeiro, pela primeira vez em sua história de 34 anos, a Microsoft anunciou que iria demitir 5 mil funcionários em um período de 18 meses. A medida faz parte do plano de redução de custos para enfrentar a crise mundial, diz Smith, mas nenhum centavo será cortado da área de pesquisa e desenvolvimento (P&D). "É preciso priorizar as coisas certas. As companhias e economias que investirem em P&D agora serão as mais bem-sucedidas depois que a crise acabar."

O reforço interno à inovação é parte essencial da estratégia da Microsoft para assegurar seu lugar nas três telas. Tome-se o caso dos netbooks, os laptops ultraportáteis e geralmente baratos que caíram no gosto do público nos últimos meses. Muitos dos primeiros aparelhos usavam o sistema Linux, mas quando a Microsoft percebeu que estava diante de um novo segmento de mercado - e não de uma moda passageira - passou a dar atenção ao negócio. Muitos dos equipamentos atuais passaram a incluir versões atuais do Windows, mas a principal aposta da empresa para capturar esse mercado é o Windows 7, previsto para chegar ao mercado em 2010, embora alguns analistas achem que ele será lançado ainda este ano.

Junto com a inovação interna, a Microsoft está investindo em parcerias tecnológicas de duas mãos. A empresa licencia sua tecnologia para outras companhias, mas também passou a acelerar a identificação de patentes de terceiros que possam vir a interessar e a comprar essas licenças de uso. "Só nos últimos cinco anos, assinamos 500 contratos de licença desse tipo", conta Smith.

Algumas iniciativas da Microsoft parecem desconectadas umas das outras, mas integram esse cenário maior. A companhia quer avançar nos celulares com o Windows Mobile, mas também procura espaço nos servidores - os computadores potentes usados nos centros de dados das companhias - com o Windows Server. Os servidores são a base da chamada computação em nuvem ou "cloud computing", a tendência de que os dados não fiquem mais no computador do usuário, mas no centro de dados do fornecedor do serviço. Se bem-sucedida, a Microsoft pode estar tanto dentro do celular do usuário, independentemente do fabricante do aparelho, como no servidor da companhia telefônica desse consumidor.

No Brasil, Smith encontrou-se com autoridades em Brasília, além de empresários e executivos em São Paulo, onde ocorreu na semana passada a reunião da Business Software Alliance, uma organização internacional que congrega grandes fabricantes de software, incluindo a Microsoft. O país tem a sexta maior base de computadores do mundo, à frente de nações como Rússia e França, e pode ultrapassar a Alemanha e o Reino nos próximos quatro anos, diz o executivo. Ele diz que isso é "impressionante", mas não significa que o risco da exclusão digital tenha acabado. Embora 11 milhões de PCs sejam vendidos anualmente no Brasil, a população do país é muito maior que isso e as conexões de banda larga ainda são relativamente restritas entre quem já tem acesso à web, observa o executivo.

Quanto às oportunidades de negócios, Smith diz que nenhum país está imune aos efeitos da crise, mas que o Brasil ocupa uma posição melhor do que muitos outros. É natural, diz ele, que as empresas reduzam seus investimentos nesse momento, mas elas também precisam estar atentas para investir nas áreas capazes de estimular a retomada da economia - um movimento no qual as três telas, afirma, terão muito a contribuir.

Publicada em: 30/03/2009


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