Algum dia as máquinas realmente serão
capazes de pensar?
Quanto tempo
nós humanos levamos para somar números
grandes como 6.452.413 e 823.752? Se você
demora 30 segundos, já está acima
da média de um cérebro humano. Um
computador popular, hoje, pode realizar esse mesmo
cálculo em 0,00000001 segundo. E quanto
à nossa memória? Conseguimos lembrar
uma lista de compra de 8 itens? Com esforço
30? Um computador de supermercado memoriza a lista
de compras de todos os clientes sem muitas dificuldades.
Até
agora parece que as máquinas estão
ganhando. Vamos virar o jogo então, quantos
amigos nós podemos reconhecer? Reconhecemos
pessoas queridas imediatamente numa multidão.
Já os computadores tem dificuldades, até
porque não têm sentimentos para distiguir
uma pessoa querida da não querida. Além
dos sentimentos, as máquinas também
não possuem criatividade, afeto, bom senso,
intenção etc.
No entanto,
avanços tecnológicos recentes estão
reduzindo a diferença entre cérebros
humanos e os circuitos. Na Universidade de Stanford,
bioengenheiros estão implementando o processamento
paralelo das redes neurais em microchips. No Instituto
de Neurociências em LaJolla, Califórnia,
pesquisadores construíram um robô,
chamado Darwin VII, com uma câmera e mandíbulas
para interagir com o ambiente. No Instituto Gênesis
da PUC-Rio,
uma equipe multidisciplinar está reproduzindo
o complicado processamento da linguagem natural
em código Java.
Esses avanços
levantam uma questão inevitável:
se o processamento dos computadores simular as
redes neurais da natureza, poderão realmente
as máquinas algum dia pensar de verdade?
Há mais de 50 anos o matemático
britânico Alan Turing inventou uma máquina
engenhosa que poderia responder a questão,
a máquina de Turing. Em analogia a essa
máquina, o pensamento não passaria
de uma máquina de estados. Bem antes disso,
o filósofo Descartes já associava
pensamento à existência humana com
a célebre frase: “Penso, logo existo”.
É muito antiga a busca pela essência
humana, a computação não
passa apenas de mais uma delas.
Em 1950,
quando microchips de silício ainda não
existiam, Turing previu que, conforme os computadores
ficassem mais espertos, a questão da inteligência
artificial (IA) acabaria surgindo. De acordo com
Turing, um computador poderia “pensar”
se pudesse enganar um ser humano utilizando sua
linguagem natural. O matemático arriscou
ainda que em 50 anos – ou seja, hoje –
seríamos capazes de construir computadores
tão capazes quanto os humanos no processamento
da linguagem natural de forma a passar no teste
de Turing.
Até
agora, a previsão não se realizou.
Cientistas alegam que os computadores sofrem do
problema do design restrito, isto é, sua
programação permite que realizem
apenas um trabalho específico. Além
disso, eles também alegam que a velocidade
de processamento dos microchips ainda não
atingiu a velocidade do cérebro humano.
Ray Kurzweil,
o pai da IA nos Estados Unidos, estimou que nosso
cérebro pode calcular a 10 petaflops por
segundo. A estimativa foi baseada na velocidade
da sinapse de um neurônio, a quantidade
de neurônios no cérebro e o número
médio de conexões por neurônio.
Em 24 de
junho desse ano, o laboratório de Riken,
situado no Instituto Yokohama – Japão,
apresentou ao mundo um computador capaz de processar
1 petaflop, 10% da capacidade do processamento
do nosso cérebro. Riken atingiu essa marca
com o apoio de gigantes do mercado como Intel
e NEC. Riken prevê que, daqui a quatro anos,
em 2010, atingirá a marca dos 10 petaflops
de Kurzweil. Mas se tivermos computadores capazes
de processar tão rápido quanto o
cérebro humano, que programas eles haveriam
de processar? Os cientistas da computação
dizem que esse programa precisaria ter um excelente
domínio da linguagem, com todas as suas
peculiaridades e estranhezas. Para isso seria
crucial levar em conta o contexto no qual as frases
são ditas. No entanto, tentar escrever
um software que considera cada possibilidade rapidamente
leva ao que chamamos de “explosão
combinatória”.
A Cortex
Intelligence, empresa incubada no Instituto Gênesis
da Puc-Rio, mantém pesquisas de ponta na
área há três anos. Seus últimos
resultados são animadores e mostram que
a capacidade de armazenamento não é
o problema. Todo o conhecimento lingüístico
do cérebro humano pode ser armazenado em
um iPod comum do mercado, fazendo referência
à quantidade de espaço ocupada pelo
Córtex. Só não simulamos
a capacidade lingüística do cérebro
humano porque nossas máquinas ainda são
mais lentas do que o cérebro humano.
Analistas
do mercado dizem que em 2017 o computador de Riken
será viável economicamente. Provedores
de serviços para web como Google, Ebay
e Amazon terão esta capacidade mais cedo,
porém, de forma distribuída e não
centralizada. Centenas de milhões de pessoas
estarão modelando seu processamento através
de cliques, isso significa que não haverá
um programa central utilizando o processamento
todo.
A questão
que fica é, então, que programa
será rodado nessa máquina. Riken
arrisca que esse programa demorará ainda
mais uma década para surgir. A Cortex Intelligence
aguarda 2017 para colocar o seu software mais
completo no mercado. Se isso for verdade, o ser
humano poderá adquirir um cérebro
extra por 2000 reais.
Christian
Aranha é pesquisador e coordenador do centro
de pesquisas da Cortex Intelligence.
|