Edição Nº04 - outubro de 2006 EDITORIAL EDIÇÕES CADASTRO CONTATO
Artigo: Inteligência Artificial


Algum dia as máquinas realmente serão capazes de pensar?


Quanto tempo nós humanos levamos para somar números grandes como 6.452.413 e 823.752? Se você demora 30 segundos, já está acima da média de um cérebro humano. Um computador popular, hoje, pode realizar esse mesmo cálculo em 0,00000001 segundo. E quanto à nossa memória? Conseguimos lembrar uma lista de compra de 8 itens? Com esforço 30? Um computador de supermercado memoriza a lista de compras de todos os clientes sem muitas dificuldades.

Até agora parece que as máquinas estão ganhando. Vamos virar o jogo então, quantos amigos nós podemos reconhecer? Reconhecemos pessoas queridas imediatamente numa multidão. Já os computadores tem dificuldades, até porque não têm sentimentos para distiguir uma pessoa querida da não querida. Além dos sentimentos, as máquinas também não possuem criatividade, afeto, bom senso, intenção etc.

No entanto, avanços tecnológicos recentes estão reduzindo a diferença entre cérebros humanos e os circuitos. Na Universidade de Stanford, bioengenheiros estão implementando o processamento paralelo das redes neurais em microchips. No Instituto de Neurociências em LaJolla, Califórnia, pesquisadores construíram um robô, chamado Darwin VII, com uma câmera e mandíbulas para interagir com o ambiente. No Instituto Gênesis da PUC-Rio, uma equipe multidisciplinar está reproduzindo o complicado processamento da linguagem natural em código Java.

Esses avanços levantam uma questão inevitável: se o processamento dos computadores simular as redes neurais da natureza, poderão realmente as máquinas algum dia pensar de verdade? Há mais de 50 anos o matemático britânico Alan Turing inventou uma máquina engenhosa que poderia responder a questão, a máquina de Turing. Em analogia a essa máquina, o pensamento não passaria de uma máquina de estados. Bem antes disso, o filósofo Descartes já associava pensamento à existência humana com a célebre frase: “Penso, logo existo”. É muito antiga a busca pela essência humana, a computação não passa apenas de mais uma delas.

Em 1950, quando microchips de silício ainda não existiam, Turing previu que, conforme os computadores ficassem mais espertos, a questão da inteligência artificial (IA) acabaria surgindo. De acordo com Turing, um computador poderia “pensar” se pudesse enganar um ser humano utilizando sua linguagem natural. O matemático arriscou ainda que em 50 anos – ou seja, hoje – seríamos capazes de construir computadores tão capazes quanto os humanos no processamento da linguagem natural de forma a passar no teste de Turing.

Até agora, a previsão não se realizou. Cientistas alegam que os computadores sofrem do problema do design restrito, isto é, sua programação permite que realizem apenas um trabalho específico. Além disso, eles também alegam que a velocidade de processamento dos microchips ainda não atingiu a velocidade do cérebro humano.

Ray Kurzweil, o pai da IA nos Estados Unidos, estimou que nosso cérebro pode calcular a 10 petaflops por segundo. A estimativa foi baseada na velocidade da sinapse de um neurônio, a quantidade de neurônios no cérebro e o número médio de conexões por neurônio.

Em 24 de junho desse ano, o laboratório de Riken, situado no Instituto Yokohama – Japão, apresentou ao mundo um computador capaz de processar 1 petaflop, 10% da capacidade do processamento do nosso cérebro. Riken atingiu essa marca com o apoio de gigantes do mercado como Intel e NEC. Riken prevê que, daqui a quatro anos, em 2010, atingirá a marca dos 10 petaflops de Kurzweil. Mas se tivermos computadores capazes de processar tão rápido quanto o cérebro humano, que programas eles haveriam de processar? Os cientistas da computação dizem que esse programa precisaria ter um excelente domínio da linguagem, com todas as suas peculiaridades e estranhezas. Para isso seria crucial levar em conta o contexto no qual as frases são ditas. No entanto, tentar escrever um software que considera cada possibilidade rapidamente leva ao que chamamos de “explosão combinatória”.

A Cortex Intelligence, empresa incubada no Instituto Gênesis da Puc-Rio, mantém pesquisas de ponta na área há três anos. Seus últimos resultados são animadores e mostram que a capacidade de armazenamento não é o problema. Todo o conhecimento lingüístico do cérebro humano pode ser armazenado em um iPod comum do mercado, fazendo referência à quantidade de espaço ocupada pelo Córtex. Só não simulamos a capacidade lingüística do cérebro humano porque nossas máquinas ainda são mais lentas do que o cérebro humano.

Analistas do mercado dizem que em 2017 o computador de Riken será viável economicamente. Provedores de serviços para web como Google, Ebay e Amazon terão esta capacidade mais cedo, porém, de forma distribuída e não centralizada. Centenas de milhões de pessoas estarão modelando seu processamento através de cliques, isso significa que não haverá um programa central utilizando o processamento todo.

A questão que fica é, então, que programa será rodado nessa máquina. Riken arrisca que esse programa demorará ainda mais uma década para surgir. A Cortex Intelligence aguarda 2017 para colocar o seu software mais completo no mercado. Se isso for verdade, o ser humano poderá adquirir um cérebro extra por 2000 reais.

Christian Aranha é pesquisador e coordenador do centro de pesquisas da Cortex Intelligence.